Sou Susana e morri dentro de um Pesadelo Real.

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Desenho Autoral – Todos os Direitos Reservados. Artista: Byanka G. Nunes.

E essa é a minha historia.

Desde de pequena não podia reclamar da minha vida, afinal, eu e minha familia tínhamos uma casa razoavelmente boa para época, um carro simples, mas de fato um ótimo carro, tínhamos um gato, e certamente parecíamos uma linda família feliz.
O que ninguém sábia era que, a familia feliz só existia para as pessoas que nos viam na rua.
Dentro de casa o medo reinava, sentia-me prisioneira do próprio caos que ali existia, não precisava de muito para que quando alguém coloca-se os pés naquela casa, sentisse um arrepio e fosse embora com alguma desculpa, isso aconteceu muito durante minha infância, com o passar dos anos, as visitas cessaram.

Lembro-me bem da noite em que tudo começou, eu tinha uns quatro anos, ouvi os passos dele subindo as escadas, eram pesados, com o passar do segundos os passos foram se aproximando da porta do meu quarto, e de repente em um só ranger a porta se abriu, meus olhos se arregalaram, ele nunca ia ao meu quarto aquela hora. O medo tomou conta de mim como nunca fizera antes, ele se aproximou de mim, com o corpo ainda sujo de sangue, o cheiro da carne dos animais que ele havia abatido mais cedo ainda estava em seu corpo, seu hálito cheirava a cachaça. Foi então que ele levantou meu cobertor, com uma mão acariciava minhas pernas com a outra abria a braguilha da calça, ele foi abaixando o shorts do meu pijama, não pude gritar, estava em choque, não sabia o que estava acontecendo, apenas sábia que era errado, muito errado, naquela noite chorei muito, não podia me mexer, doía muito, o sangue escorria pelas minhas pernas, no dia seguinte mancava, mas não disse nada do que houve á minha Mãe, disse apenas que havia caído da cama na noite que se passará, e que tinha acabado torcendo o pé. A manhã se seguiu normal, mas o desespero já fazia parte de mim, com a chegada da noite o terror tomou conta de mim, ouvi seus passos se aproximando novamente, quando ele estava prestes a abrir a porta de meu quarto, ouvi minha Mãe dizendo à ele:

_”Ela é sua filha, não faça isso novamente.”

Ouvi ele empurrando-a, ela voltou ao seu quarto, e lá permaneceu quieta e submissa, não tentou detê-lo de nenhuma outra forma. Senti ódio, como pode uma mãe deixar isso acontecer a sua filha, me perguntei isso durante anos. Naquela noite e nos anos que se passaram continuei a ser estuprada, nunca tive reação, não tinha dinheiro, nem parentes, nem lugar para ir, na escola não tinha amigos, apenas rezava para que aquilo acabasse, sabia que eu era vigiada pelos amigos daquele monstro, temia por minha vida.
Com 15 anos arrumei um emprego na vendinha da esquina, mas como eu disse, era vigiada e sei que se contasse a alguém, algo pior aconteceria comigo. Bom com o emprego fui guardando dinheiro, para por o plano de ir embora daquele lugar em prática.

Faltava um dia para eu completar 16 anos, fugiria no dia seguinte logo após aquele monstro sair para trabalhar, juntei todo o dinheiro que eu havia conseguido, peguei algumas roupas, apenas o necessário. Às 5h00 ouvi a porta da frente bater, ele havia saído, aquela era minha chance, pulei a janela e fui andando até os fundos da casa de maneira silenciosa, o coração quase me saía pela boca, no fim do terreno havia uma cerca de arame farpado, passei pela cerca, olhei para trás para ter certeza de que não estava sendo seguida, foi quando fui atingida na cabeça por um pedaço de madeira, fiquei zonza e acabei desmaiando.

Acordei amarrada em uma cadeira, ainda estava meio desnorteada, tinha um corte em minha testa, olhei para frente e lá estava ele, me olhando, com aquele sorrisinho de vitória estampado no canto de sua boca, olhei novamente ao redor e percebi que estava no velho abatedouro em que ele trabalhava, era uma parte que havia sido desativada a muito, muito tempo, lembro-me de já ter estado ali quando era pequena antes das coisas começarem a acontecer, havia sido desativada pois abriram um novo galpão na frente com equipamentos de última geração para época. Soube que ninguém me acharia ali, poderia gritar, berrar, chorar, ninguém me escutaria, e ele também sabia disso.
Ele me olhou com desdém, e disse:

_”Você acha que quando começou a trabalhar, eu não desconfiaria que iria tentar fugir? Você demorou a tentar, mas eu sábia que iria.”

Foi então que descobri que ele saía mais cedo e me vigiava para ver se estava partindo.
Sabia que iria morrer ali, era o fim, o fim dos sonhos, mas também dos medos.
Ele me torturou naquela manhã, a tarde eu já estava praticamente desfigurada, rezava para morrer logo, já não aguentava mais, foi então que em um último suspiro, uma arma de ar daquelas que usam para matar porcos e outros animais, perfurou minha cabeça e eu morri ali, sozinha, sem a piedade de ninguém.

Meu corpo nunca foi achado, talvez tenha sido misturado com o resto de outros animais.
O meu crime nunca teve solução, o monstro ficou a solta, minha mãe nunca se importou, no fundo ela tinha mais medo dele do que eu, ela sempre soube e se calou. Para os vizinhos deve ter sido dito que fui estudar fora, afinal eu vinha de uma boa família.
O monstro foi maior, arrancou-me cada esperança que um dia eu tive, me fez conhecer o pior dos infernos, não sobrevivi, mas essa minha história, essa sou eu, e isso faz parte de mim. Sou Susan.


Desenho Autoral – Todos os Direitos Reservados.

Artista: Byanka G. Nunes.

Texto de uma autora anonima.

Mande a sua fanfic, história, poema, critica, desabafo, e etc para o nosso e-mail: adolescênciadelua@gmail.com.

Quero agradecer a todo mundo que está enviando seus poemas, seus textos, suas histórias, etc… Estou amandando, continue mandando, a sua história pode ser a próxima!

Nunca se esqueça: violência sexual, é crime…. Seu corpo, suas regras!
Denunciei.


 

Beijos da Mila. Gratidão!

10 comentários em “Sou Susana e morri dentro de um Pesadelo Real.

  1. Eu não sei nem o que falar.
    É tão ruim conhecer esse pesadelo….
    Ela não sobreviveu ao pesadelo, eu ainda vivo dentro dele.
    Mila, seu blog é incrível, é bom que você abre espaço para mais assuntos como esse.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Que texto, eu chorei, até nos que nunca passamos por isso, conseguimos sentir a dor, porque não existe uma melhor que não tenha sentido medo de algum homem. Sempre estamos com o pé atrás, pode acontecer com qualquer uma, a qualquer hora, em qualquer lugar, onde quiserem.

    Curtido por 1 pessoa

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