Um Nu no Corredor – Capitulo 34 – Série Os Freitas

Capitulo 34

Violeta

Ele tinha um olhar baixo, ele respirou fundo, olhou para mim e começou a relatar:

– Deu tudo certo na cirurgia, no entanto, pode haver sequelas.

– Que tipo de sequelas? – Pergunto aflita.

– Perda de memória, de visão, dos movimentos. Mas antes de constatar isso, devemos esperar que ele acorde.

Começo a chorar e me sentir mais fraca, por que logo com ele? Estávamos tão bem e agora isso, como vou conseguir agora? Falta pouco para os meninos nascerem e eu preciso do apoio dele.

Tento me recompor e pergunto:

– Posso vê-lo? – Ele assente, conduz-me ao quarto me deixando sozinha.

Vejo-o ali, deitado, dormindo tão calmo que parece que nada aconteceu, isso dói, observar ele ali, ele está ali e ao mesmo tempo tão longe, não podia ouvir sua voz nem ver aquele sorriso que me ilumina todos os dias. Aproximo da cama e puxo uma poltrona para sentar próximo a ele, não sei quanto tempo se passou, apenas me dei conta do tempo passado quando Liza bate na porta, entra se aproxima, pousa a mão sobre meu ombro e diz:

– Amiga… você está aqui há três horas. Precisa ir para casa descansar.

– Não, eu preciso ficar ao lado dele, ele precisa de mim.

– Violeta, pense nos bebes, eles precisam de você, e vamos todos ficar aqui, qualquer novidade te avisamos.

– Ok, eu vou, mas vou voltar logo, não posso deixa-lo sozinho muito tempo. 

Ela assente, saio do quarto e logo estou no térreo, peguei um táxi, pouco tempo depois estou em casa. Abro a porta e vejo tudo escuro, passava das 2 da manhã, estava exausta, vou para o banheiro e tomo um banho demorado, saí do banho, coloquei uma roupa bem confortável, me deitei na nossa cama, o cheiro dele estava impregnado nos lençóis e no travesseiro, uma dor profunda me atinge, começo a chorar, não sei quanto tempo demorei para adormecer, quando despertei o sol iluminava minha cama, ele está radiante, diferente de mim neste momento.  Passavam das 11:20 h e comecei me arrumar para ir ver como está Conrado.

Quando chego lá vejo meus pais no café junto com os outros e me pergunto quem está com Conrado? Vou em direção ao quarto, quando abro, meus olhos não podem acreditar no que veem, lá está Isabela, inclinada sobre ele dando um beijo em seus lábios, entro, bato a porta atrás de mim furiosa.

– Desculpe, atrapalho? O que faz aqui Isabela? – Ela estava com um curativo na testa e a bochecha arranhada.

– O que você faz aqui?

– Você não tem direito de estar aqui, vá embora – falo tentando manter a calma.

– Você não pode me tirar daqui sua pirralha. Não tem esse poder.

– Quer ver? – Me aproximo da cama e aperto o botão vermelho chamando o enfermeiro que logo aparece, olho para ele e digo – Poderia acompanhar essa senhora até a saída? Ela não é da família muito menos é amiga do paciente.

Ele assente e aponta a direção para que ela pudesse passar, ela me fuzila com os olhos e diz:

– Você verá, ele irá voltar para mim, você não poderá fazer nada para impedir, sua pirralha.

Sai do quarto batendo o pé mostrando toda sua irá, como se eu tivesse medo dela, ela não é a única pessoa que não gosta de mim. Liza entra no quarto e se aproxima.

– Eu não a vi entrando. Desculpe.

– Por que ele estava sozinho aqui?

– Tio Lucca fez todo mundo ir para o café comer alguma coisa.

Não digo nada, afinal conheço meu pai, sei que ele faria isso e não aceitaria um não como resposta. Olho para ele, está calmo, me sinto tonta e quase vou ao chão, Liza me segura, e me abraça afagando meu cabelo, comecei a chorar, falando entre soluços:

– Por que Liza? Por que com ele? Eu não aguento vê-lo aí, sem saber o que vai acontecer daqui para frente, preciso dele aqui comigo e bem. – Liza não fala nada apenas me abraça. Eu estava com os óculos escuros na cabeça, me afasto um pouco dela e eles escorregam pairando em meus olhos.

– Por que está chorando? – Parei de chorar subitamente e me virei olhando para Conrado, através dos óculos, que me olha curioso, com os olhos pesados e escuros. Eu mal acreditava no que via, ele está bem ali olhando para mim fixamente, pareceu-me que ele não fazia ideia de onde estava e perguntou – Quem são vocês? Por que está chorando moça?

Nesse momento meu coração se despedaçou, Liza que estava em silêncio apertou meus ombros, ela se afastou e rapidamente chamou o médico que logo entrou, juntamente com meus pais, Anastácia, Rick e Caleb, o médico se aproxima e diz:

– Como você está?

– Estou bem, sinto uma dor forte na cabeça e não sinto meu lado direito. O que aconteceu?

– Alguém bateu o carro no seu ontem à noite quando estava voltando do trabalho, você ficou desacordado.

– Ontem? Eu estava em casa ontem. Foi sábado, não trabalhei ontem.

– Que dia pensa que é hoje?

– Hoje é dia nove de setembro de 2016, por que?

Nesse momento tudo se escurece, ouvi ruídos e me senti sendo levantada e colocada numa maca. Quando acordei vi minha mãe ao meu lado, perguntei:

– Mãe, como ele está?

– Ele está fazendo alguns exames.

– E os meninos? – Perguntei passando a mão sobre a barriga.

– Eles estão bem, sua queda poderia tê-los prejudicado, mas os enfermeiros vieram rápido e estabilizaram sua situação.

– Mãe… ele não se lembra de mim, não se lembra de nós – falei com a voz embargada, ela se levantou pegou minha mão e diz:

– Filha, ele não se lembra dos últimos dois anos, o médico disse que ele pode se lembrar a qualquer momento, o médico não contou a ele ainda que ele perdeu parcialmente os movimentos do lado direito, com a fisioterapia que irá fazer aqui mesmo no hospital ele poderá recuperá-los, nem tudo está perdido, filha. O amor de vocês é mais forte do que tudo isso e vocês irão superar essa fase, você terá o apoio de todos.

Respiro fundo e tento me acalmar, sim, vai dar tudo certo; fico horas conversando com minha mãe e quando me dou conta o médico aparece e diz que posso ir, minha mãe me ajudou a levantar e me troquei no banheiro, fui em direção ao quarto de Conrado que já havia voltado dos exames, abri a porta e vejo Caleb e Rick conversando com ele, assim que me veem eles se retiram nos deixando a sós me aproximo, começo a falar calmamente:

– Oi, como você está se sentindo?

– Estou bem, quem é você?

– Meu nome é Polly… – ele me olha atentamente e observa cada reação minha, como eu usava os óculos escuros, ele não me olhou diretamente nos olhos – Eu sou.… eu sou.… sua vizinha. Vim ver como você está.

– Ah sim, eu estou bem. Desculpe, mas não me lembro da senhorita.

– Eu sei… bem…fico feliz que esteja bem. Com licença – dou meia volta e saio do quarto, assim que fecho a porta, começo a chorar novamente, meu coração está despedaçado, eu não sei o que fazer.